Saturday, November 29, 2008

A política no Gueto

Alguém lembra de Netinho de Paula? Você lembrará dele. É aquele que era vocalista de um grupo de pagode. É aquele que ao se irritar com uma pergunta do repórter Vesgo, do programa Pânico na TV, o agrediu com um soco. Netinho de Paula fez 84 mil votos nas últimas eleições. Foi o terceiro vereador mais votado de São Paulo. A vitória de Netinho de Paula é um bom resumo destas últimas eleições.

Comemorando sua vitória, o cantor justificou sua eleição declarando “Fiz uma campanha focada no gueto, na periferia. Quero poder tratar de moradia, de saneamento básico. Quero também construir pequenos núcleos de educação e esporte para desviar os jovens do caminho das drogas”.

O cantor Netinho é um dos milhões de brasileiros que não sabem as reais funções de um vereador. É por isso que ele promete construir núcleos de educação para sei lá o que. Outros milhares iguais ou piores que ele foram eleitos Brasil afora. A obrigatoriedade do voto faz com despreparados concorram e se elejam com a maior facilidade. Isso ocorre por que a larga maioria da população, obrigada a votar, não tem nem interesse nem discernimento para fazê-lo. Pela falta de interesse, acaba votando em qualquer um. Ou naquele cuja vitória é certa ou naquele que lhe prometer alguma coisa em particular. Pela falta de discernimento, acaba sendo enganada por propostas eleitoreiras, populistas ou até, em certos casos, melodramática. O voto no Brasil é carregado com todos os vícios que condenaram nosso país ao atraso. O sentimentalismo piegas, o oportunismo e o jeitinho. Esta tudo lá, na forma de votos.

O nível de conhecimento de nosso eleitorado é tão limitado que mesmo o candidato que quer fazer política séria precisa apelar para certos trejeitos de candidatos populistas. Do contrário, a população não saberá do que ele esta falando. Às vezes é necessário até mesmo educar o eleitor antes de partir para o convencimento. A larga maioria dos que votam não sabem quais funções essas pessoas irão desempenhar. A população acredita que Netinho de Paula, por exemplo, eleito vereador, poderá mesmo criar os tais núcleos educacionais. Netinho de Paula não fará núcleo algum por que não tem poder para tanto. Não é da função do vereador fazê-lo. Netinho de Paula não sabe disso também. Milhares de vereadores eleitos também não. Essas pessoas, quando não de má fé proposital, entram nestes cargos ludibriados pela própria ignorância na vã esperança de realizar aquilo que não tinham conhecimento e que não podem fazer. A decepção pela constatação da crua realidade obrigará o vereador, agora sem propósito, a executar o feijão com arroz típico das Câmaras de Vereadores: homenagens, definição dos nomes de ruas e aprovação de projetos do executivo. A iniciativa dos vereadores de criar leis, de fiscalizar o executivo para o bom uso dos recursos públicos e de representar a sociedade acaba ficando em último plano, por que no fim das contas, esses que foram eleitos estão despreparados para desempenhar essas funções.

Tem Lula nessa história? Claro que tem Lula. O Brasil de hoje é assolado por uma ditadura da ignorância, onde seu maior promotor é o presidente da república. Nunca antes houve tamanha criminalização do estudo e do conhecimento. Há uma cruzada contra a academia. É a ditadura do despreparo, incentivada por alguém que ao invés de estimular esses predicados, tão caros no primeiro mundo, estimula um confronto entre analfabetos e estudados. Entre os sem toga e os com toga. Tudo isso se reflete na nossa política. Muitos despreparados vêem no cargo político a possibilidade de conseguir subir de vida. Para isso se usam de suas únicas armas possíveis: o emocional, a popularidade ou até mesmo excentricidade. São recompensados com o voto da população. Sim, a mediocridade de nossos políticos é anterior à chegada de Lula ao poder, mas é evidente que foi com ele na presidência que nossos despreparados encontraram um publicitário de primeira e uma voz que os representa-se.

Eu sei que é aborrecido fazer analise das eleições que já ocorreram. Sei que é aborrecido citar o baixo nível de nossos políticos. Sei que é mais aborrecido ainda lembrar que o Brasil continua sem perspectiva nenhuma de melhora. Netinho de Paula, ao contrário de nós todos, tem altas expectativas. Ele quer “desempenhar um bom papel agora, implementar ótimas políticas públicas e depois caminhar para o Senado”. Netinho chegará lá. Nosso atraso fará sua carreira. Alguém ainda lembra de Netinho de Paula? Você lembrará dele.

Artigo publicado no jornal Informante em 20 de novembro de 2008

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