Saturday, November 29, 2008

Don Quixote no Palanque

Essa semana Lula recebeu o prêmio Don Quixote das mãos do Rei da Espanha, Juan Carlos. Ninguém melhor que Lula para ser o titular de tal honraria. Lula passou os últimos cinco anos nos amolando com seus inimigos imaginários. Primeiro a mídia golpista e a elite branca que não suportavam a chegada de um retirante na presidência. Agora são os países ricos, em especial os EUA, que com suas crises estariam tentando frear a marcha lulista que nos levaria a aurora do primeiro mundo.

Tempos atrás, refletindo sobre a crise econômica nos EUA, Lula afirmou que: “A gente não fica dependente do dono do engenho, pois fizemos parceria com várias bodegas por aí afora.” Nas últimas semanas a Bolsa de Valores teve que interromper o pregão por causa dos largos tombos que sofreu e o Banco Central teve que intervir na economia. Lula acredita que nossos negócios com bodegas, como o Sudão, nos salvarão da quebradeira generalizada que toma conta do mundo.

Uma das maiores inconformidades da oposição é que Lula nunca passou por um teste de fogo em relação à situação econômica no exterior. Os líderes oposicionistas afirmavam que toda onda de crescimento econômico de Lula se dava por conta do “céu de brigadeiro” em que se encontrava o mercado internacional. Agora que tem a oportunidade complicar a situação do presidente, a oposição o ajuda. Recentemente tomaram a iniciativa de conceder ao Banco Central poderes especiais para intervir mais facilmente nos mercados. A oposição, evidentemente, coloca as questões econômicas e a vida e estabilidade nacional acima dos confrontos políticos com o governo. Lula nunca pensou assim. Pelos longos anos em que esteve na oposição, Lula sempre tomou a iniciativa, junto ao PT, de bombardear o governo com críticas ferozes em relação à política econômica. Lula e o PT sempre colocaram o país em segundo plano, dando destaque e prioridade ao achincalhamento político de seus adversários. Quem não se lembra do famoso “FORA FHC E FMI!”? Tarso Genro, que recentemente este fazendo campanha em Farroupilha, foi um dos expoentes da tese golpista do impeachment de Fernando Henrique, quando este em 1998, recém reeleito, teve que enfrentar a desvalorização do Real frente ao Dólar. Revoltado com a crise, Tarso escreveu um artigo pedindo a cabeça do presidente 19 dias depois daquele ter sido reeleito. Se naquela época Tarso Genro queria o fim do governo, hoje os oposicionistas querem ajudar o governo.

A fúria opositora de outros tempos passou a ser a fúria governista. Hoje temos uma oposição lânguida e muitas vezes acusada de adesista. Lula e os petistas não gostam nem mesmo desta oposição light, que ajuda o governo a manter as rédeas sobre a economia. É comum vê-lo, em seus inúmeros discursos de palanque, acusando-a de invejosa e golpista. FHC, um dos poucos que ainda levantam a voz para questionar o governo, recentemente, cobrou energia nas atitudes de Lula em relação à crise. Foi malhado pela mídia e pelos analistas, por que em meio a sua cobrança, citou o FMI. Como se vê, Lula corre grave risco com uma oposição tão violenta e uma mídia tão mal intencionada com ele.

A crise virá. Lula sabe disso. Lula sabe que ela poderá aniquilar sua popularidade se atingir o bolso do cidadão. É provável que seus efeitos sejam sentidos. Quando a economia vai bem nem as mais graves denúncias de corrupção ferem a imagem de um presidente. Quando a economia vai mal não há discurso populista que segure popularidade alguma. Lula, neste momento, usa o palanque de uma suposta vitalidade brasileira em relação à crise. Lula sabe que esse palanque só aparenta ter vitalidade. Seus parafusos e pregos por mais que bem pregados podem ser destruídos facilmente com uma tormenta severa. A qualquer momento, nosso Don Quixote de Garanhuns pode desabar junto com o palanque mambembe. Nesse caso é bom não ficarmos rindo, é muito provável que ele caia em cima de nós.

Artigo publicado no jornal Informante em 23 de outubro de 2008

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